quinta-feira, 17 de abril de 2008

Poesia & Música



VINHO

A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.
Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci,
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.
Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.
A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.

Cecília Meireles

A minha paixão por música vem desde o útero de minha mãe. Mas poesias, confesso, comecei a ler e a apreciar a pouco tempo.

E como tenho me surpreendido!

Eu me pego emocionado a ler versos como estes de Cecília Meireles, pois de alguma forma eu os transporto para a minha vida. Trago-os para as minhas experiências.
Na verdade, a poesia acima, eu tive o prazer de ouvi-la no “Terças Poéticas”, uma iniciativa da Fundação Clóvis Salgado (Um belo projeto!). Declamada por Thelmo Lins, cantor mineiro de Itabirito, eu ouvi, me emocionei (muito!) e não resisti, caí em lágrimas. De alguma forma, na hora em que ouvi, imediatamente percebi o quão grandiosa é a sutileza de tais versos.

As lágrimas, bem, foram um misto de várias coisas. Thelmo Lins estava acompanhado por um coral, também de Itabirito, chamado Chega de Saudade. Formado por três mulheres e quatro homens, o coral cantou algumas músicas, dentre elas, Olhos nos olhos, de Chico Buarque (eu que já estava emocionado devido a poesia, simplesmente desabei ao ouvi-los cantar essa música) e Quem sabe isso quer dizer amor de Milton Nascimento, entremeada por outros versos de Cecília Meireles.

Foi tudo bonito. Foi uma daquelas apresentações que te deixam estagnado, tamanha a beleza das músicas, das poesias, das poesias que foram musicadas.